19.5.08

É DOCE MORRER NO MAR ( para um diamante chamado Conde)



- E não é que ela desenha?
- Eu não sei desenhar outras coisas, Conde... Só sei desenhar coisas tristes.
- Mas você vai desenvolver a sua personagem, sua menina. Vai acrescentar outros elementos, outros sentimentos... É tudo questão de trabalho árduo e tempo.

*

Querido amigo,
O dia foi amanhecendo cinzazulado,
enquanto o mar rugia , rugia...

Você fez um peixe de graveto e dedicou à mim.
Ele servia pra pegar brazinhas
e acender cigarros de Santa Maria.
Que eram do verdinho, como à muito eu não via.
Dignos de um guerreiro como você.

Sabe, Conde, se tivesse me avisado,
eu não teria dormido, ia ficar te ouvindo.
Até levei pincéis e tinta,
pragente pintar o momento.
Mas você , inexplicavelmente,
não quis.

Falou do reformatório que as crianças tinham medo,
(menos você, que gostava do cheiro de mato e terra molhada)
Dos pais que não teve
e de vidros pintados á guache
em tempos de Páscoa.

Mas Ela te chamava e você já sabia.
“ Vi meu corpo boiando na água e eu olhando de cima...”

Um dia antes eu também senti.
As ondas me abraçavam e eu só lembrava de Alfonsina
a poeta que entrou no mar com o peito aberto
e o coração partido.
“ fora preciso tanto mar para apagar tanto fogo.”

Soube que ali era o meu lugar,
minha casa,
minha cama.
Pra onde eu iria voltar

algum dia.

Aí penso em você que estava de amarelo (naquele tom que eu mais gosto)
e antes de entrar no mar,
com as mãos espalmadas cumprimentou o deus Sol.

Olhei seu corpo e te ví tão lindo.
Um leão.
Um rei.
Insensível a chuvinha gelada que o céu chorava.

E Ela não resisitiu.
Te abraçou, te beijou...
E te levou pra junto Dela.

Mas se não te encontrarem,
vou ouvir o que a Marcita disse:
“Não acredito nisso!
Engenhoso como ele só, encaixou vários cocos na sunga,
foi boiando até alguma ilha
que nem Robson Crusoé!”

No fundo eu também não acredito.
Só acho meio difícil,
que Iemanjá, tão esperta,
tenha deixado escapar um marido tão bonito.


Com amor e as mãos sujas de tinta.


V

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